SUICÍDIO, DIMENSÃO DO PROBLEMA E O QUE FAZER

SUICÍDIO, DIMENSÃO DO PROBLEMA E O QUE FAZER

O suicídio constitui uma importante questão de saúde
pública no mundo inteiro. A Organização Mundial da
Saúde (OMS) estima que, até 2020, mais de 1,5 milhões
de pessoas irão cometer suicídio por ano. O número de
suicídios no mundo cresceu em 60% nos últimos anos
– cerca de três mil pessoas se suicidam por dia e 60 mil tentam,
mas não conseguem. Este número representa quase 50% do total
de mortes violentas. No ano 2000, 14,5 mortes por 100 mil habitantes
(uma morte a cada 40 segundos) ocorreram no mundo.
Atualmente, nos Estados Unidos, para cada homicídio há dois suicídios
(cerca de 18 mil e 34 mil por ano, respectivamente). Em
2001, o suicídio foi a 11ª causa de morte entre todas as idades
nos Estados Unidos, com uma taxa de 10,8 suicídios por 100 mil
habitantes. E a terceira causa de morte entre 15-24 anos e a segunda
entre 25-34 anos.
O Brasil ocupa a 67ª posição em uma classificação mundial em
taxa de suicídio. No entanto, em números absolutos, o Brasil está
entre os 10 países com mais suicídios. No Brasil, cerca de 25
pessoas se matam por dia, fazendo do país o 11º colocado no
ranking mundial de suicídios. No Brasil, a taxa de homicídios (25
por cem mil habitantes) supera a de suicídios (6 por cem mil
habitantes), mas a distância entre as duas taxas tem se reduzido
progressivamente. A taxa de suicídio no Brasil tem se elevado nos
últimos anos, mais ainda entre os jovens com idades entre 15 e 24
anos, passando de 4,0 por 100 mil habitantes em 2000 para 4,7
em 2005. Ha subnotificação e o difícil reconhecimento do suicídio
em nosso país em relação, por exemplo, aos acidentes (ocorrência
deveria ser a correta denominação) de trânsitos e quedas.
Preconceitos de natureza religiosa, cultural e social infelizmente
impedem o correto dimensionamento do problema.
Entre 1980 e 2006, um total de 158.952 casos de suicídio foi observado
no Brasil. O índice total de suicídio cresceu de 4,4 para 5,7
mortes por 100 mil habitantes (29,5%). Os índices mais altos de
suicídio foram registrados nas regiões Sul (9,3) e Centro-Oeste (6,1).
Os homens são os que têm a maior probabilidade de cometer suicídio.
Os índices mais altos de suicídio foram registrados na faixa etária de
70 anos ou mais, enquanto que os maiores aumentos aconteceram
na faixa etária dos 20 aos 59 anos. As taxas de suicídio cresceram
mais entre os indivíduos com idades entre 20 e 59 anos (30%) do que
entre aqueles com idade maior que 60 anos (19%). Para os que têm
75 anos ou mais, o índice passa dos 15/100 mil . A taxa de suicídio
mais baixa foi observada no grupo com idades entre 10-14 e 15-19,
com um crescimento de 20% e 30%, respectivamente.
Dimensão do Problema e o que Fazer
Suicídio
Artigo
Suicídio – Dimensão do Problema e o que Fazer
No período de 2000 a 2008, houve 73.261 óbitos por suicídios
no Brasil: 57.937 homens e 15.324 mulheres, o que significa 22
mortes por dia. No mesmo período, houve 435.069 óbitos por
homicídios, 132 por dia, resultando em 5,9 pessoas mortas por
homicídios para cada uma que tenta suicídio (6,9 entre os homens
e 2,3 entre as mulheres).
No Brasil, 43 crianças de 0-9 anos entre 2000 e 2008 (média
anual de cinco) morreram por suicídio, o que corresponde a 0,1%
do total de mortes por essa causa. O enforcamento foi a forma
utilizada por 80% dos meninos. As meninas utilizaram preferencialmente
intoxicação medicamentosa, objetos cortantes e afogamento.
No mesmo período, morreram 6.574 adolescentes de
10-19 anos por suicídio. Em média, anualmente, 730 adolescentes
morrem por suicídio. A taxa nos anos 2000 a 2008 foi, em média,
de 2/100 mil, 9% do total de todos os suicídios que ocorreram
no país. Entre 2000-2008 morreram 17.557 adultos jovens (20-
29 anos) e 38.449 pessoas entre 30-59 anos em decorrência de
suicídio. A taxa média encontrada entre os adolescentes (2/100
mil) salta para 6/100 mil entre adultos jovens e 6,8/100 mil entre
adultos com mais idade. O impacto da mortalidade se eleva
com o aumento da idade: 24% do total de mortes por suicídio
ocorreram na faixa mais jovem e 52,6% entre pessoas de 30-59
anos. O número de idosos que se suicidaram foi de 10.434 neste
período. As taxas oscilam em torno de 7/100 mil habitantes (pico
de 8,2/100 mil em 2005). Os idosos possuem as mais elevadas
taxas de mortalidade por suicídio comparando-se a outras faixas
etárias, e são responsáveis por 14,3% do total de óbitos. Em todo
o mundo, a taxa de suicídio é mais alta entre os indivíduos mais
velhos do que entre os mais jovens; contudo, esta tendência vem
se alterando em escala mundial desde os anos 90.
O suicídio é um fenômeno que não depende de uma única causa.
Há uma combinação de fatores – biológicos, psicológicos e
sociais. Entre as principais causas psiquiátricas preveníeis está
a depressão, transtorno bipolar, a esquizofrenia e o alcoolismo.
Indivíduos com dois transtornos mentais têm um risco de tentar o
suicídio 3,5 vezes mais alto do que aqueles que não têm nenhum
transtorno. Embora os transtornos mentais estejam associados a
mais de 90% de todos os casos de suicídio, o suicídio pode ser
resultado de muitos fatores culturais e sociais muito complexos.
O suicídio é mais provável durante os períodos de crises socioeconômicas,
familiares e crises individuais, por exemplo, a perda de
relacionamento afetivo.
O suicídio afeta todo mundo, sem distinção. Acredita-se que o
meio cultural influencie as taxas de suicídio. Altos níveis de coe
são social e nacional reduzem as taxas de suicídio. Essas são mais
elevadas junto às pessoas aposentadas, desempregadas, divorciadas,
sem filhos, urbanas, vivendo sozinhas. As seguintes características
foram predominantes nos casos analisados (1980-2006):
homens (77,3%), idade entre 20 e 29 (34,2%), sem companheiro/
companheira (44,8%) e ter tido pouca educação formal (38,2%).
Em relação às características epidemiológicas, a própria casa foi o
lugar de suicídio mais predominante (51%), seguido pelo suicídio
em hospital (26,1%).
Os seguintes métodos foram mais usados para o suicídio no período
1980-2006: enforcamento (47,2%), armas de fogo (18,7%),
outros métodos (14,4%) e envenenamento (14,3%). Quando o
envenenamento foi o método de suicídio utilizado, 41,5% cometeram
suicídio usando pesticidas e 18% usando medicamentos.
Em relação ao número total de mortes ocorridas em casa, 64,5%
foram causadas por enforcamento e 17,8% por armas de fogo.
Por outro lado, de todas as mortes por envenenamento, 37,1%
aconteceram no hospital e apenas 5,8% em casa. Nas ruas ou
áreas públicas, a maioria das mortes envolveu o uso de armas de
fogo (24,7%).
As regiões que apresentaram as taxas de suicídio mais baixas foram
a região Nordeste, com uma média de 2,7, e a região Norte,
com uma média de 3,4. No entanto, os maiores aumentos foram
vistos na região Nordeste, que experimentou um incremento de
130%, e na região Centro-Oeste, com um aumento de 68% entre
1980 a 2006.
As taxas médias mais altas entre as capitais foram Boa Vista (7,6),
Porto Alegre (7,3) e Florianópolis (6,5). As capitais com as taxas
médias mais baixas foram Salvador (1,2) e Rio de Janeiro (2,4).
A Bahia tem a menor taxa de suicídio do Brasil – 1,8 para cada
100 mil habitantes. Entretanto, registra-se em torno de 100 a
120 novos casos de tentativa de suicídio por mês naquele Estado.
Embora Rio de Janeiro e Salvador tenham as mais baixas taxas de
suicídio, relatam taxas de homicídio que estão entre as mais altas
do Brasil (38,1 e 42,3 por 100 mil habitantes, respectivamente).
Os pesquisadores têm discutido a possibilidade da existência de
conexões inversamente proporcionais entre homicídio e suicídio.
A tentativa de suicídio é mais frequente entre as mulheres, no
entanto, os homens conseguem um índice maior de morte por
utilizarem métodos mais agressivos, como armas de fogo ou enforcamento,
enquanto as mulheres utilizam de meios como remédios
ou veneno.
Os homens apresentaram taxas de mortalidade por suicídio mais
altas em todas as regiões, particularmente na região Sul, com
uma média de 11,7, e na região Centro- Oeste, com uma média de
7,1. A menor taxa de mortalidade por suicídio entre os homens foi
encontrada na região Nordeste, com uma média de 3,3. Contudo,
homens do Nordeste experimentaram o maior aumento (190%)
durante o período do estudo. As mulheres apresentaram as maiores
taxas médias na região Sul, a saber, 3,2.
Na maioria das regiões, os métodos de suicídio mais comumente
utilizados foram o enforcamento, armas de fogo e envenenamento,
enquanto que na região Nordeste enforcamento (48,8%), envenenamento
(18,2%) e armas de fogo (16,9%) foram os métodos
de suicídio predominantes. No Sudeste, enforcamento (39,6%),
outros métodos (24,2%) e armas de fogo (16,5%) predominaram.
Nos casos de suicídio por envenenamento, destacou-se o
uso de pesticidas, particularmente nas regiões Sudeste (29,7%),
Sul (28,6%) e Nordeste (19,8%). As maiores taxas de suicídio
com uso de medicamentos foram encontradas nas regiões Sudeste
(7%), Sul (4,1%) e Nordeste (3,7%). Os homens predominaram
em todos os métodos utilizados, com a exceção do uso de medicação,
no qual as mulheres registraram porcentagens mais altas
(48,6% x 51,4%).
Medidas a serem
tomadas
Em 1999, a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou o Programa
de Prevenção do Suicídio (Supre, em inglês), com o objetivo
de alertar o mundo sobre o problema do suicídio. Aqui no Brasil
ainda falta muito para um programa de prevenção de suicídio
integrado.
O treinamento de equipes especializadas em suicídio, bem como a
integração de todos os serviços – linhas de telefone, emergências,
ambulatórios especializados, Caps e outros serviços comunitários
–, deve ter a máxima urgência. Estão listadas abaixo algumas
medidas a serem tomadas.
Prevenção primária
1) Acesso à informação. A mídia, os serviços de saúde, a escola ,
bem como serviços comunitários, têm um papel fundamental em
qualquer programa de prevenção de suicídio. A escola pode ser
um instrumento na identificação precoce de indivíduos em risco
de suicídio.
2) Acesso a armas. Em 2005, suicídio por arma de fogo foi a
segunda causa de morte entre americanos abaixo de 40 anos.
Entre americanos de todas as idades, mais da metade de todos os
suicídios é provocada por armas de fogo. Em 2005, 46 americanos
por dia cometeram suicídio com armas de fogo. Existe uma enorme
quantidade de evidências demonstrando que a posse de armas
de fogo aumenta substancialmente a probabilidade de suicídio.
Deste modo, métodos rígidos de controle na autorização de posse
de armas são necessários.
3) Álcool. O álcool esta intimamente correlacionado com violência
hetero e auto dirigida. Devemos aumentar progressivamente o
controle sobre venda, incrementar impostos (e não como recentemente
o Ceará fez ao reduzir o imposto cobrado para bebidas
quentes que serão exportadas para outros estados da Federação).
4) Chumbinho e pesticidas. O carbamato é uma das principais
formas de tentativa de suicídio no Brasil. Sua venda deve ser disciplinada
para evitar que qualquer ponto comercial possa vendêlo
sem qualquer controle. A Associação Brasileira de Psiquiatria
deve fazer uma campanha nacional para sensibilizar o congresso
sobre a urgência e necessidade de criar legislação a este respeito.
Prevenção secundária
1) Diagnóstico precoce de transtornos psiquiátricos. Depressão,
transtorno bipolar, esquizofrenia e dependência alcoólica estão
extremamente associados ao suicídio, assim o diagnóstico e tratamento
precoce deverão diminuir de maneira importante a consumação
do suicídio.
2) Antidepressivos e suicídio. Na Finlândia, em 15.390 pacientes
acompanhados por 3,4 anos, houve uma redução do risco relativo
de mortalidade em pacientes que estavam tomando antidepressivos
(31% a 41%). Nos Estados Unidos, o aumento da taxa de
suicídio em jovens coincide com a redução da prescrição de antidepressivos
nesta população. Deste modo, não devemos deixar de
tratar a depressão com todas as medidas adequadas.
3) Integração das linhas de socorro imediato com os serviços de
atendimento médico-psiquiátrico.
Prevenção terciária
1) Tentativa anterior. Pessoas que tentaram suicídio constituem
um grupo de altíssimo risco em relação a cometerem suicídio em
uma tentativa posterior. Assim, em cada emergência médica, deveria
haver uma equipe especializada em suicídio que faria o primeiro
atendimento, e em uma etapa posterior seria encaminhado
para um seguimento em um Caps ou ambulatório especializado.

Referências:
■■Lovisi GM, Santos SA, Legay L, Abelha Lucia A, Valencia
E Análise epidemiológica do suicídio no Brasil entre 1980
e 2006 Rev Bras Psiquiatr. 2009;31(Supl II):S86-93
■■Mann JJ, Apter A, Bertolote J, et al. Suicide prevention strategies:
a systematic review. JAMA 2005;294:2064-2074
■■Mello-Santos C, Bertolote JM, Wang Y. Epidemiology of suicide
in Brazil (1980-2000): characterization of age and gender rates
of suicide. Rev Bras Psiquiatr. 2005;27(2):131-4.
■■Miller M, Hemenway D. The relationship between firearms and suicide:
a review of the literature. Aggress Violent Behav 1999;4:59-75.
■■Tiihonen J, Lönnqvist J, Wahlbeck K, Klaukka T, Tanskanen A, Haukka J Antidepressants
and the Risk of Suicide, Attempted Suicide, and Overall Mortality
in a Nationwide Cohort Arch Gen Psychiatry. 2006 Dec;63(12):1358-67
■■Wunderlich U, Bronisch T, Wittchen HU. Comorbidity patterns
in adolescents and young adults with suicide attempts.
Eur Arch Psychiatry Clin Neurosci. 1998;95:248-87.

Fabio Souza
Professor Associado de Psiquiatria da Universidade Federal do Ceará; PhD
Universidade de Edinburgh; Coordenador do PRAVIDA (Projeto de Apoio à Vida)

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Cristão, amante da Natureza, de bem com a vida, feliz por trabalhar com prazer
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