AÇAFRÃO, O OURO DA TERRA DO CENTRO-OESTE

 

AÇAFRÃO, O OURO DA TERRA DO CENTRO-OESTE

Globo Rural On-line – Mariana Caetano | Fotos Ernesto de Souza

Cultivo de açafrão se profissionaliza na pequena Mara Rosa (GO), que amplia beneficiamento e obtenção de subprodutos

O agricultor Ademar Borges de Oliveira, de 46 anos, ainda se recorda de quando seus familiares usavam o açafrão-da-terra como medicamento, misturado ao azeite para curar feridas. Mas a lembrança mais saborosa da infância é a dos pratos que aproveitavam a vocação da raiz como condimento. “Minha mãe descascava, fatiava e punha para secar. Depois, ia para o pilão e fazia o pó de açafrão, que era então colocado na manteiga quente para fazer frango, macarrão ou batatinha. Ficava delicioso”, conta. À época, o produto era comumente encontrado em quintais e terrenos de Mara Rosa (GO), a cerca de 350 quilômetros ao norte da capital, Goiânia. Chegou lá pelas mãos dos bandeirantes, que, a partir do século XVII, começaram a plantar o açafrão na região para demarcar os locais onde encontravam ouro. O vegetal, também conhecido como cúrcuma, se prestava bem a essa função porque não morre: todo ano ele seca, descansa e então rebrota. Tardou a passar de uma espécie praticamente nativa ao cultivo comercial – o que só aconteceu nos anos 1980. Mas não falhou: o município é hoje o principal polo de açafrão-da-terra do país, responsável por cerca de 90% da produção nacional.

É entre junho e setembro, período da colheita, que Mara Rosa entra em ebulição. A atividade das caldeiras que cozinham as raízes é constante e a estimativa é que mais de 300 famílias vivam do açafrão no município. Oliveira representa uma delas. Acostumado a trabalhar como empregado, nunca tinha aventado a possibilidade de tomar à frente da enxada. Até que um amigo de infância, Arlindo Simão Vaz, ofereceu parceria para o plantio. “Eu via que dava lucro, mas me faltava coragem para tentar”, admite. Há oito anos, o colega arrendou um pedaço de terra e deu para Oliveira tocar. “O cabresto escapuliu”, brinca. Acabou se entusiasmando e, no ano seguinte, arrendou sozinho, utilizando sementes e implementos emprestados de Vaz. “Com o açafrão, consegui comprar um computador para meus filhos, televisão boa, um rebanho de gado, uma carroça com mula e até uma pequena propriedade”, diz ele, que nesta safra cultivou 1,5 hectare.

Trinta anos atrás, os primeiros a cuidar da comercialização do produto foram os atravessadores. O pagamento girava em míseros R$ 0,70 a R$ 1 pelo quilo. Mas, aos poucos, os agricultores perceberam que, caso se organizassem, havia ali um mercado muito mais amplo e rentável. Em 2003, fundaram a Cooperativa dos Produtores de Açafrão de Mara Rosa (Cooperaçafrão), que logo gerou transformações, ao adquirir o papel de reguladora do mercado, mantendo o valor da cúrcuma mais elevado. As mudanças técnicas também vieram. Em 2005, os agricultores começaram a definir espaçamentos entre linhas e entre plantas. Dois anos depois, realizaram um levantamento das áreas dos cooperados com o auxílio de GPS e definiram os detalhes do plantio. Além disso, a pequena agroindústria instalada pela cooperativa tornou mais eficiente o beneficiamento. Geralmente, o açafrão era cozido ainda na propriedade, em fornos improvisados, ou fatiado e depois desidratado sob o sol. “Mas era tudo muito trabalhoso. O açafrão na roça demora de 35 a 45 dias para secar. Na cooperativa, seca em nove a 13 dias. Isso reduziu muito os custos”, compara Vaz. Hoje, o açafrão de Mara Rosa é comercializado in natura, desidratado.


O caminho do campo à indústria não foi fácil. “Uma das primeiras empresas em que batemos à porta nos disse que precisaria de 30 toneladas, mas tínhamos apenas 22”, afirma Dalmo Modesto da Silva, atual presidente da cooperativa. Sem esmorecer, deram um gás no plantio, saltando de 22 para 72 cooperados. Em anos de safra cheia, a Cooperaçafrão chega a ofertar 400 toneladas, mas a média é de 200. O preço está na faixa de R$ 4 a R$ 5 o quilo. A produtividade varia de 30 a 50 toneladas por hectare. A questão da oferta de terras é uma preocupação, porque a maioria dos que estão na atividade não são donos, mas arrendatários. “Como, às vezes, um entendimento com os proprietários leva tempo entre uma safra e outra, enfrentamos algumas variações na produção”, diz Silva. O custo por hectare fica no máximo em R$ 15 mil, e rende de R$ 25 mil a R$ 30 mil, praticamente o dobro. Na tentativa de baixar o custo e conferir mais agilidade, visto que o plantio e a colheita ainda são manuais, há um projeto para mecanização que segue em testes.

Atualmente, as vendas da Cooperaçafrão se concentram no mercado interno (houve apenas uma exportação de 30 toneladas no ano passado) e são cerca de dez clientes, a maioria em São Paulo. É o caso da Penina Alimentos, que trabalha no setor de condimentos e temperos. A empresa requer 180 toneladas por ano, demanda totalmente atendida pela colheita de Mara Rosa. A companhia encaminha a maior parte do açafrão para indústrias alimentícias, que fazem um novo processamento e revendem para grandes redes varejistas. Um outro passo para a melhoria do produto deve ser dado com a ajuda do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que sinalizou com a liberação de R$ 1,5 milhão para a ampliação da unidade de beneficiamento da Cooperaçafrão. A agroindústria atual pode processar 50 toneladas e está aquém das necessidades locais. A nova fábrica terá capacidade para 500 toneladas e também oferecerá secagem em estufas. A construção deve ser iniciada em 2012. “Queremos fazer a extração dos subprodutos e vender o açafrão já moído”, projeta Silva. Para isso, os produtores terão o amparo do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que liberaram R$ 472 mil para a instalação de um laboratório destinado a separar da raiz a óleo-resina (substância usada na indústria de cosméticos), a curcumina (corante para alimentos como biscoito e macarrão) e o amido (também destinado à culinária, como tempero). “O quilo da curcumina, por exemplo, varia de R$ 60 a R$ 70, então os ganhos dos cooperados seriam multiplicados”, explica Éder José de Oliveira, do Sebrae. O teor médio desse composto também é maior no produto de Goiás: de 4,5% a 5,5%, em comparação aos 2,5% a 4,5% da Índia, país que é o maior fornecedor mundial.

Publicado em: 05/11/2011

Fonte: CNA SENAR

 

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