O RIO DA MINHA VIDA – LINDO TEXTO

O RIO DA MINHA VIDA – LINDO TEXTO

Paulo Roberto Gaefke
Escrito em Junho de 2008
Parte I – Quase humano
Mario olhava para a estrada escura a sua frente e pensava em quanto ainda
teria que andar…
Estava cansado, vinha de uma cidade onde as pessoas já não o queriam por perto. Suas roupas estavam muito rasgadas e o seu aspecto depois de mais de 4 anos vivendo pelas ruas, não deveria ser dos melhores…
Naquela noite onde as estrelas pareciam estar mais “acesas” do que nunca, onde a natureza parecia estar em festa de tão bonito de se admirar, Mario sentia todo o peso do mundo em suas costas e sua vontade era de deitar ali mesmo e acabar com tudo.
Acabar com tudo?
Tudo o quê?
Há anos que a sua vida era um nada, um perambular de cidade em cidade, cada vez se afastando mais da sua cidade, do seu passado, onde a dor o havia expulsado da sua própria vida.
Tudo o quê?
Ele não tinha nem documentos, nem dinheiro, nem roupas, nem dignidade.
Tudo havia ficado para trás, a única coisa que ele possuía ainda e não queria ter, eram as lembranças que volta e meia estavam “importunando-o”, chamando-o para uma realidade que ele estava tentando deixar longe da sua existência tão inútil.
Cansado e atormentado pelos pensamentos insistentes, Mario se deixa cair ali mesmo, em um lugar no meio do caminho do nada, onde a sua vida lembrava o “nada” e tudo o que ele queria naquele momento era adormecer logo para esquecer.
Deitado de costas na grama úmida da noite, olhava para o céu que parecia encantado de tantas estrelas e tentava fixar o olhar e o pensamento em uma delas. Uma pequena estrela que o seu pai, há muitos anos atrás, quando ele ainda era um menino curioso e cheio de vida, mostrou no céu de uma noite brilhante como aquela, e dizia ser a estrela dele, que ele poderia batizar com o nome que quisesse, e ele na sua inocência infantil apelidou de “estrelinha azul” e nunca mais esqueceu.
Lá estava ela, a “estrelinha azul” da sua infância, no mesmo lugar, do mesmo tamanho, mas tão diferente para ele, que já não tinha o abraço fraterno do pai que morrera dois anos depois daquele “batizado”, que não tinha mais ninguém há muito tempo…
Grossas lágrimas desceram pelo rosto encardido do Mario que por alguns instantes voltou a ser criança, mergulhado na inocência dos bons pensamentos que não conseguia esquecer.
Assim adormeceu, entre as lágrimas da doce recordação e um estranho sorriso de quem um dia foi muito feliz.
Parte II – O despertar
Mario acordou com os raios do sol batendo no seu rosto, e não sabia onde estava…
Levantou a cabeça e começou a recordar-se da noite anterior, da emoção das lembranças que de vez em quando ainda o perseguiam, apesar de seus esforços em tentar esquecer-se da sua história. Ouviu um barulho de água correndo e percebeu que estava próximo a um pequeno rio. Levantou-se com esforço, pois estava todo dolorido da noite mal dormida. Aproximou-se do rio e ficou parado olhando o reflexo do sol nas águas cristalinas daquele pequeno rio.
Decidiu lavar-se ali e quando se aproximou da água, viu o seu próprio rosto refletido e não se reconheceu. Quase caiu na água ao ver aquele rosto barbado, os cabelos estavam maiores que a sua própria imagem, e não havia nada ali que lembrava um ser humano. Agora entendia porque as pessoas se afastavam quando ele aparecia e as crianças atiravam pedras ou saiam correndo gritando para esconderem-se bem longe dele. Ele estava assustador, mas um detalhe chamou ainda mais a sua atenção: o seu olhar!
Os olhos estavam “embaçados”, não havia vida naqueles olhos verdes que outrora foram brilhantes e despertavam à atenção das mulheres e hoje pareciam “musgos”. Seus olhos queriam dizer alguma coisa e ele não queria ouvir. Ficou com medo da sua imagem, mas os olhos estavam ali, fixos na sua alma, dizendo tanta coisa ao mesmo tempo…
Imagens percorreram seu cérebro, fotos, lembranças, cheiros, tudo o que ele tentou afastar da sua memória por mais de 5 anos, voltou com força total, como se uma pessoa com amnésia voltasse a lembrar da sua história.
Desabou num choro quase que infantil…
Não sabia quanto tempo ficou ali, imóvel, diante do rio no choro que
limpava velhas feridas da alma, mas sabe que foi naquele exato momento
que resolveu “voltar a vida”. Tomado de uma súbita energia, entrou na
água e lavou o corpo e alma, esfregando velhas dores, removendo crostas
de tristeza e decepções, mergulhando rancores que seguiam rio abaixo.
Quando saiu da água já era outra pessoa, e amarrando o cabelo da melhor
maneira possível, procurou em seus trapos alguma roupa melhor, e
vestindo-as, sentiu-se melhor…
Sentou-se diante do rio e deixou-se aquecer pelos raios do sol que
aumentavam conforme as horas iam passando…
Mário pensou no que fazer da vida, como renascer, como voltar ao controle
do seu “barco” que andara tão desgovernado nos últimos anos. Foi quando
percebeu que do outro lado do rio chegavam algumas pessoas com varas de
pescar e comodamente sentaram-se para uma pescaria silenciosa.
Percebeu alguns olhares ainda hostis, mas já estava acostumado e ali
permaneceu olhando a pescaria daquelas pessoas. Percebeu que apesar de
pequeno o rio em certa altura do barranco tinha muitos peixes e em uma
moita logo adiante, havia varas de pescar quebradas e abandonadas. Sem
muitas opções, aproximou-se do local e percebeu que pelo menos duas
varas poderiam ser consertadas e assim o fez. Em pouco tempo já estava
com os caniços na mão e pescando peixes como nunca o fizera. Parecia
mágica, mal deitara a linha com a isca no rio e já puxava um peixe fisgado.
Assim em pouco mais de meia hora já tinha 12 ou 13 peixes de bom
tamanho e ali mesmo preparou uma pequena fogueira e comeu dois peixes
com tamanho prazer que parecia um menino ao receber um doce inteiro.
Nunca um alimento lhe pareceu tão bom…
Pensou no que fazer com os peixes restantes que estavam em um
“samburá” improvisado com uma velha sacola de lona. Resolveu levá-los
até a cidade mais próxima quem sabe, vendê-los por qualquer preço.
Caminhou por boa meia hora e deparou-se coma uma cidade pequena, com
algumas lojas e bares na rua principal.
Alguns meninos brincavam na rua e olharam assustados para ele, mas já
não correram e nem jogaram pedras. menos mal, pensou ele, assim foi
caminhando e deparou-se com um pequeno restaurante onde tomou
coragem e mostrou os peixes frescos. O dono do restaurante, Seu Manoel,
ficou impressionado com o bom tamanho dos peixes e por estarem ainda
vivos, e logo ofereceu um bom pagamento por eles. Mário parecia um
menino, contava e recontava o dinheiro, as primeiras notas que via há
mais de 5 anos…
Do outro lado da rua viu uma barbearia e viu que estava cheia de gente
naquela hora, e resolveu ficar por perto sem entrar, com medo de assustar
a freguesia…
Depois de mais de 1 hora de espera, Mário entrou na barbearia, ainda
assustado com tantos espelhos e com a sua aparência.
Carlos, o barbeiro olhou para o Mário e sem falar
nada, convidou-o para sentar-se na cadeira de barbeiro.
_ O que vai ser meu amigo? Barba e cabelo completos?
– Quanta custa esse serviço?
– 2 moedas dessas que estão na sua mão pagam tudo e ainda sobra troco…
– Ah! que bom, então, serviço completo.
Carlos notou que iria ter trabalho e por meia hora trabalhou em silêncio.
Era como se estivesse “redescobrindo uma pessoa”. Ele imagina quem seria
essa pessoa por baixo de tanta sujeira, de tantos descuidos, de tanto
“sofrimento”.
Aos poucos um novo rosto ia aparecendo com o cabelo cortado.
Depois, foi vez da barba, grossa e muito enrolada, foram precisos 2
lâminas novas para tanto fio enroscado. Mas, em pouco tempo surgia no
espelho um rosto amadurecido, olhos verdes claros, uma cara boa,
impressionante na verdade.
– Virou a cadeira em direção ao espelho e mostrou o seu trabalho.
Mário olhou-se demoradamente. Sorriu. Reconheceu-se!
Há quanto tempo não se via assim! Carlos, o barbeiro notou a satisfação no rosto do seu mais novo cliente e perguntou:
– Então, aprovou o meu trabalho?
– Sim, claro…desculpe, fazia tempo que eu não cortava nem cabelo e nem a barba.
– Percebi. Como é seu nome meu amigo?
– Mário. Esse é o meu nome, Mário.
– Pois bem Mário, o meu é Carlos e estou às ordens. Vai morar aqui na cidade?
– Quem sabe? Por enquanto estou fora da cidade, mas pretendo voltar todos os dias para vender meu peixe.
– Ah! o amigo é pescador?
– Não, não…sou um sobrevivente que descobriu um rio e um caniço para voltar a vida…
Parte 3 – O compadre
Mário saiu deixando Carlos intrigado com a sua história.
Aproveitou e passou diante do restaurante onde havia vendido os peixes. Já era a hora do almoço e um cheiro de “comida boa” invadiu-lhe as narinas. Quanto tempo não sentava-se diante de um prato para comer? Tudo o que havia comido nos últimos anos eram sobras dos outros, restos no lixo, esmolas da “bondade humana”, e olhando para as poucas moedas que lhe restavam olhou para o cartaz com o preço da comida no restaurante do Seu Manoel…
Ainda era proibido para ele…
Engasgando-se com a saliva, deu meia volta e quando já se preparava para voltar, percebeu o grito do seu Manoel chamando:
– O peixeiro!
Por favor, venha cá…
Imediatamente, Mário voltou-se para o restaurante e ficou feliz de ser chamado de peixeiro.
Seu Manoel por pouco não o reconheceu com o cabelo e barba cortados. Se não fosse pelas roupas velhas diria que ali estava outro homem.
– Peixeiro, qual é o seu nome?
– Mário, seu Manoel, Mário…
– Pois bem Mário, seus peixes fizeram sucesso, será que poderia me trazer mais uma dúzia amanhã??
– Vou fazer o possível, dependo da boa vontade deles para tirá-los do rio…
– Ah! lá isso é! Riu divertido o Seu Manoel que perguntou?
– Mário já almoçou?
– Não, infelizmente o meu dinheiro ainda não dá para esse luxo!
– Ora, faça-me um favor! Entre, és o meu convidado.
Mário hesitou um pouco, mas não resistiu ao apelo daqueles sabores…Entrou e viu algumas mesas bem dispostas, com toalhas verdes e outras brancas que formavam um conjunto harmonioso. Tudo lembrava uma casa simples, mas com aquele carinho que só a casa da gente tem. Seu Manoel pediu para ele sentar-se ao fundo, junto ao balcão e saiu para providenciar o almoço.
No salão havia alguns trabalhadores de alguma fábrica do lugar, pois todos vestiam um macacão azul escuro com um emblema no bolso, que deveria ser a marca de alguma empresa…
Poucos repararam na sua entrada…
Mário olhou para o pequeno vaso de flores e sua alma foi mais uma vez inundada por recordações. Uma tarde, uma casa, uma pessoa que ele amou demais…
As lágrimas não demoraram a surgir. De maneira incontrolável, como águas que ultrapassam o nível de uma represa, descem sem contenção.
Seu Manoel chegou com o prato e ao ver as lágrimas perguntou:
– Tudo isso é fome ou medo da comida da Maria?
Mário riu, ou pelo menos tentou rir…
-Desculpe-me, foram algumas lembranças…
– Eu entendo meu amigo, eu entendo. Mas, coma, saboreie esse picadinho com batatas, porque os seus peixes terminaram antes da hora.
Mario viu o prato caprichado e esqueceu-se de tudo. Atacou-o com vontade e em pouco tempo não havia sobrado um grão sequer. Comida simples, digna de elogios.
Mário levantou-se, foi até o balcão levando o prato vazio e disse para o Seu Manoel:
– Dê meus parabéns para a sua cozinheira. Nunca comi uma comida tão saborosa, tão gostosa mesmo! Muito obrigado por me proporcionar essa refeição. Deus lhe pague!
-Ele tem pagado, com muito mais do que eu mereço, não se preocupe. Apenas se preocupe em pescar e trazer mais belos peixes como aqueles de hoje.
– Vou fazer o possível! Mais uma vez, muito obrigado!
– Então até amanhã!
 Inté.
Parte 4 – Descobertas
Mário voltou pela trilha até o rio. Ao chegar lá, sentou-se diante do rio e ficou contemplando a paisagem ao redor. Viu como era bonito aquele lugar. Logo adiante, viu algumas árvores e uma pequena elevação. Resolver seguir até lá e reparou que havia sob a pedra que avistara de longe uma depressão que formava uma proteção, como se fosse uma cobertura que protegeria quem ali se deitasse contra a chuva e serviria de ótimo abrigo.
Rapidamente montou uma espécie de cama com folhas e galhos de árvores próximas e deitou-se para experimentar o seu invento. Sentiu-se tão confortável que adormeceu. Sonhou com a sua casa na cidade onde morava e com a sua linda esposa. Eles recém-casados, felizes demais, viviam a plenitude de um amor que começou na infância deles. Era tudo tão perfeito, ele tinha um emprego maravilhoso em um Banco, junto compraram e montaram aquela casa, com dois bons dormitórios, móveis novos e muitos, muitos sonhos. Mário não cansava de olhar para a sua esposa, uma menina-mulher que sorria como uma fada de contos encantados. Tão feliz que estava que não percebeu que um “colega” de trabalho invejava-o pela sua felicidade e pelo cargo que ocupava que arrumou uma grande falcatrua de maneira que toda a culpa recaísse sobre ele, de tal modo que quando a coisa explodisse ninguém tivesse dúvidas da culpa do Mário no caso.
Assim foi feito e em menos de 3 meses depois do seu casamento, a diretoria do banco chamou-o para uma reunião. Sem entender nada, Mário foi informado da descoberta do desfalque de milhões que ele havia dado nas contas dos clientes do banco. O chão parecia abrir-se aos pés dele e sem acreditar ouviu as acusações contra ele. Provas foram apresentadas, Mário fora acusado sem dó, e perdeu a casa que comprara, perdeu seu automóvel, cargo e arriscava-se agora perder a liberdade, pois estava prestes a sofrer um processo criminal. Sua esposa que já tinha uma saúde frágil, entrou em depressão, mal se alimentava, e em dois meses de longo processo, calúnias e perdas, ela morreu dormindo, magra, abatida e extenuada.
Mário pensou que ia enlouquecer. Durante 3 dias ficou no cemitério, ao lado do túmulo da sua amada. Sem comer, sem beber, sem falar, até todas ás lágrimas saírem da sua alma.
Depois disso saiu sem rumo pelo mundo…e desde então, caminha sem lembrar de quem fora, da sua história e do seu passado.
Acordou assustado, suando muito e recordava o rosto da sua esposa, sua doce Lídia que morrera de desgosto e ele era o culpado.
No dia seguinte, foi ao local onde guardara as varas e começo a pescar. Estava mais animado, depois de ter sonhado a noite inteira com a sua amada. Apesar de não entender porque no seu sonho, Lídia apresentava-lhe uma senhora de cabelos bem brancos. Ele nunca havia visto aquela mulher, mas Lídia sorria e mostrava aquela senhora como se fossem velhos conhecidos. Enquanto recordava o sonho, pescava e rapidamente tinha 15 peixes de bom tamanho e levou para o Seu Manoel que ficou surpreso com a qualidade daqueles peixes.
Pagou-o e convidou-o mais uma vez para almoçar depois das 14 horas quando todos os fregueses já teriam almoçado. Nascia ali uma grande amizade.
Seu Manoel era discreto e pouco perguntava do passado de Mário, já sabendo que ele estava fugindo de alguma coisa da sua história. Mas, ele queria saber onde Mário pescava aqueles peixes maravilhosos. Quando Mário contou que era no rio ao longo da estrada, Seu Manoel riu e achou que ele queria esconder a verdade.
– Por que a risada Seu Manoel? falou Mário com sinceridade e espanto.
– Ora Mário, naquele rio só tem peixes do tamanho do meu dedão do pé. Lá não tem peixes desse porte.
– Mas eu lhe garanto que pesco lá todos os dias, e é de lá que tiro esses peixes.
A sinceridade no rosto do Mário fez com que Seu Manoel não duvidasse, mas era-lhe custoso acreditar naquela história. Todo mundo sabia que aquele rio não dava peixes, ainda mais daquele porte e qualidade.
Mas, todos os dias, durante dois anos, Mário trazia os peixes para o compadre, e com o dinheiro que havia juntado, comprou uma pequena quitanda na vila, ao lado do restaurante e com uma casinha nos fundos. Era um luxo que Mário não experimentava há anos. Nas primeiras noites ao tentar dormir na cama não se acostumou e voltava para o chão. Tudo estava mudando, menos o sonho com a sua amada Lídia que lhe apresentava aquela senhora de cabelos brancos que ele não conhecia.
Um dia na sua quitanda, Mário viu aquela senhora do seu sonho entrar porta adentro com uma sacola nas mãos. Tinha um lenço em parte da cabeça, de onde ele podia ver os cabelos brancos. Um rosto muito carinhoso que lembrava uma “avó querida”, avental sob o vestido e mãos calejadas. Mário tomou um susto, mas conteve-se e atendeu-a com
carinho. Ela pediu frutas e verduras e quando foi pagar, juntou pequenas moedas que mais pareciam esmolas recebidas e Mário não aceitou o pagamento, disse que era um presente. Ela agradeceu e saiu.
Mário não teve coragem de perguntar nada, sob pena da mulher achar que ele era maluco. Durante os dias seguintes, a mulher vinha religiosamente na mesma hora buscar frutas e verduras e um dia, tomando coragem, Mário perguntou sobre a família dela e ela respondeu que não tinha família, tinha muitos filhos do mundo e deu-lhe o endereço da sua casa que ficava um pouco afastado da cidade, na direção do rio.
Intrigado, Mário resolve ir visitar a “senhora dos sonhos” naquele mesmo dia. Ao chegar no endereço dado, ele se depara com uma casa muito simples com um grande quintal. Lá estava a senhora com cabelos brancos cuidando da criação. Ao vê-lo chegar, para tudo para recebê-lo.
Convida-o para entrar e lá na sala,. Mário vê 5 bercinhos e crianças dormindo o sono dos justos.
– É hora do “soninho” deles.
– São seus filhos? pergunta Mário sem saber o que falar.
– São os filhos do mundo seu Mário. Crianças que foram abandonadas na minha porta e que eu crio conforme a vontade de Deus.
Mário teve a estranha impressão de ver a sua esposa sorrindo ao lado da senhora. Ele não teve dúvidas, a partir daquele dia passou ajudar diariamente no pequeno abrigo.
Três anos se passaram e Mário prosperava muito. Novas empresas instalaram-se na cidade e tanto Mário como o compadre Manoel precisaram ampliar os negócios. De uma pequena quitanda passou para um mercado, que foi crescendo com a cidade. Vieram novos negócios e Mário ficou rico. Mas, todas as tardes eram dedicadas ao abrigo que foi ampliado e já contava com 43 crianças. A notícia do abrigo da Vovó Cândida se espalhava e mães de outros lugares vinham ali entregar seus filhos que não tinham como criar.
Mário estava transformado. Não tinha tempo para tristeza e sentado no chão do abrigo, deixava as crianças pularem sobre ele. Fazia-lhes a vontade, alimentava-os, cuidava da saúde de cada um, e descobriu o amor da “paternidade”.
Uma noite de muito calor, lembrou-se do velho rio e caminhou até lá. Era uma noite estrelada como aquela em que chegara ali. Sentado na beira do rio olhou o seu reflexo na água, e graças a lua brilhante pode ver o seu rosto refletido. Era um outro homem. Havia em seus olhos uma chama de vida. Havia um motivo pelo qual lutar. Ele tinha as crianças no Abrigo, tinha o carinho da Vó Cândida e sonhava sempre com a sua Lídia, dessa vez sorrindo para ele. No reflexo onde via seu rosto viu espantado o rosto da sua amada Lídia junto ao dele. Chorou de emoção e beijou a água como se beijasse a própria esposa.
Ali ficou até o amanhecer…
Acordou e contemplou o rio. Lembrou da noite passada, lembrou do sorriso da sua Lídia. Foi em um canto e procurou a velha varinha…estava lá, embaixo da pedra onde dormira por anos. beijou a pedra agradecido por servir-lhe de morada por tantos anos. Foi até o rio, sentou-se para pescar. Lembrou-se dos comentários do seu compadre Manoel que não havia peixes ali e ficou esperando os peixes aparecerem. Passou mais de uma hora ali e nada. Nenhum peixe!
Voltou para a cidade e comentou com o compadre que riu da sua história.
-Lógico que não há peixes ali, Você pescava em outro lugar e não queria contar a verdade…
– Não. Eu juro, era ali que eu pescava todos os dias…
Mas, era inútil falar, ninguém iria acreditar, pois toda a cidade sabia que ali só havia peixes pequenos que serviam de diversão para a criançada.
Parte 5 – Assumindo a direção
Mário ia retrucar, mas foi interrompido pelo chamado de algumas crianças mais velhas do abrigo.
– Mário, Mário…acode, acode…
– O que foi meninos?
– Vó Cândida caiu no quintal…ela tá doente!
Mário saiu em desabada carreira seguida pelo seu Manoel. Ao chegarem no Abrigo viram Dona Cândida caída no chão cercada pelas crianças, pelos animais e por duas ajudantes da cozinha. Mário chegou junto dela…
– Mário, estava esperando você chegar. Cuide das crianças. Não são mais filhos do mundo, são seus filhos meu amigo. Deus lhe concedeu o direito de cuidar delas, de dar-lhes um lar e trazer alento para o seu coração. Cuide delas!
Foram as suas últimas palavras.
Morreu Vó Cândida.
Parte Final
Dez anos se passaram, o Abrigo da Vó Cândida virou um Orfanato que atende mais de 150 crianças que Mário reconhece uma a uma pelo nome. Tem diversos funcionários e alguns voluntários que vem trabalhar por amor. Mário está muito feliz, pois hoje é o dia em que vai receber de um retratista famoso da cidade grande, um quadro com a pintura da sua Lídia.
Retrato que ele fez baseado em uma velha foto que Mario conseguiu encontrar na casa onde
Lídia morava com os pais, na única visita que fez ao seu velho lar e nos detalhes que ele contou para o retratista. Ali estava o quadro. O retratista espera o seu sinal para descerrar a cortina que esconde a sua obra. Mário aproxima-se e remove a cortina. Na pintura Mário vê Lídia sorrindo exatamente como sorriu no dia em que ele “adotou” o abrigo. Sem conseguir conter ás lágrimas ele chora, emocionando as crianças que o abraçam num “grande abraço” e chorando com ele, todas perguntam:
– Por que choras paizinho!
Mário abraça as crianças, os ex-filhos do mundo, seus filhos e beija a pintura como se beijasse a sua Lídia.
Mário volta ao rio.
Precisava ir lá para agradecer. Ele sabia que havia um sentido naquele rio no seu caminho.
Os peixes que só ele pescava, o banho que o recuperou para a vida, o alimento que ele conseguia ali. Tudo, tudo veio daquele rio.
Entrou no rio e banhou-se agradecido.
Mario viveu mais de 70 anos, deixou o orfanato com uma estrutura que perdura até hoje, quase 50 anos depois. Antes de morrer, pediu para ser cremado e que as suas cinzas fossem jogadas naquele rio, onde mandou colocar na velha pedra em suas margens e que lhe serviu de abrigo a seguinte inscrição:
Rio da minha vida, Devolveste a minha alma, que jazia perdida entre ódio e decepções. Aqui renasci, fui batizado pelo amor. Aqui recebi alimento para o corpo e para o espírito.
“Hoje minhas cinzas, parte do que restou de mim, segue junto com suas águas, rumo ao mar, céu de todos os rios, enfrentando todas as curvas e desafios, pois assim como os rios, os homens vencer obstáculos, para um dia chegarem até Deus”
Mário
FIM
Que você encontre o rio da sua vida, na primeira curva da vida. Que a Vida te encontre na alegria, mas se estiver chorando, saiba que Deus te ama e te quer ver sorrindo! Paulo Roberto Gaefke

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Sobre Junior

Cristão, amante da Natureza, de bem com a vida, feliz por trabalhar com prazer
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