AINDA SE COME TARTARUGA EM SÃO NICOLAU

AINDA SE COME TARTARUGA EM SÃO NICOLAU

Carne de tartaruga devorada em São Nicolau

Criado em 12-10-02

A protecção das tartarugas nas praias do Tarrafal de São Nicolau está a ser um fiasco. Em pleno período de defeso, esse animal em extinção está entregue à própria sorte no concelho onde boa parte da população da espécie caretta caretta desova nesta época do ano. Sem vigia por perto, os predadores (humanos sobretudo) aproveitam para consumir a carne e os ovos sem dó nem piedade.

No Tarrafal de São Nicolau, segundo o Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas (INDP), estão identificadas 10 praias onde a desova de tartaruga caretta caretta costuma ser habitual neste período de nidificação.

Desde 2005 a autarquia local vem desenvolvendo um trabalho em parceria com o INDP, no sentido de combater uma tradição que vem desde a época em que as pessoas, não tendo que comer, recorriam à carne de tartaruga.

Só que este ano no Tarrafal não há ninguém a vigiar as praias. E, segundo uma fonte do A NAÇÃO, sob anonimato, alguns “grupos de paródia” e pescadores aproveitam essa ausência de vigilância para “dar cabo” das tartarugas da ilha. “Só numa noite dois pescadores, um condutor de hiace e um emigrante capturaram cinco tartarugas na praia de Brok, próxima à localidade de Praia Branca”, conta a nossa fonte, exibindo a imagem de uma arca frigorífica cheia de carne, ovos e patas do animal para comprovar a informação.

FRACASSO

Contactado por A NAÇÃO, a coordenadora do programa de protecção das tartarugas no INDP, reconhece que há falhas na monitorização das praias de São Nicolau. “Até o ano passado tínhamos como principal parceira a Câmara Municipal, que disponibilizava verbas para o pagamento dos guardas, e o INDP pagava um biólogo para fazer o trabalho técnico de monitorização e controlo dos ninhos”, informa Sandra Correia, antes de sublinhar que este ano o INDP tinha indicado o ex-vereador José Cabral para coordenar o programa mas não houve feedback quanto ao pagamento dos guardas.

Por seu lado, José Cabral, que de momento se encontra em formação na Alemanha, reitera a ideia que falta apoio institucional.  “A Direcção Geral do Ambiente (DGA), órgão que por excelência tem a missão de assumir como carro-chefe deste tipo de programa, não dá a devida atenção ao trabalho que desenvolvemos; os apoios concedidos, que nem chegam para cobrir metade das necessidades, só vêem no encerramento da campanha”, desabafa.

Das duas patrulhas realizadas antes de viajar para Berlim com financiamento próprio, Cabral verificou que o número de rastos deste ano é “manifestamente superior ao do ano passado”. “Constatámos que as populações estão sensíveis, mas houve quem que, perante a ineficácia da fiscalização, regressou à captura. Gente identificada, que todavia não pudemos apanhar em flagrante”, refere.

JUSTIÇA INSENSÍVEL

Mas não é apenas a falta de financiamento que desmotivou aquele activista comunitário. O que mais o indignou é “um recente acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, que mandou pôr em liberdade um ladrão de tartarugas, porque fez apenas uma captura, o que não consubstancia ameaça à extinção da espécie”. “Isto quer dizer”, ironiza José Cabral, “que cada cabo-verdiano tem direito a capturar uma tartaruga desde que seja pela primeira vez”.

Ao todo são 10 praias no município do Tarrafal onde se regista a nidificação de tartarugas e sete delas ficam isoladas, por isso a captura mostra-se fácil para os predadores. A praia mais próxima da cidade do Tarrafal, a de Boch Rotcha, é uma das preferidas das tartarugas, mas precisa da intervenção de um biólogo para monitorizar os ninhos. Isso porque, dada a sua pequenez, verifica-se muita sobreposição dos ninhos e por este motivo há muitos ovos que se perdem.

Mas no Tarrafal, a fiscalização não funciona, ao contrário da Ribeira Brava, também ilha de São Nicolau, mas também São Vicente e Santo Antão, ilhas onde proteger tartarugas tornou-se uma missão conjunta do INDP e de organizações não-governamentais.

SÃO VICENTE E SANTO ANTÃO EM BOA LINHA

Em São Vicente, o programa iniciou no mês de Julho, com a cooperação de 20 jovens voluntários de Ponta  d’Pom. E, de acordo com dados fornecidos por Sandra Correia, já foram marcadas 40 tartarugas com anilha, 13 em Lazareto e as restantes no Norte da Baía. Os monitores registaram cerca de 300 rastos, 50 ninhos e quatro capturas na zona de Sandy Beach. Nas praias de Palha Carga e Calheta, que são visitadas quatro vezes por semana, já foram registados 50 ninhos, mas a maioria está a ser atacada por caranguejos que se alimentam de ovos.

Já em Santo Antão, a responsabilidade ficou nas mãos do Projecto Vitó, coordenado por Silvana Roque. “Tínhamos montado acampamento no Porto Novo, mas depois passamos para o Tarrafal de Monte Trigo onde se verificava maior número de rastos”, realça aquela responsável.

Dos dados fornecidos por Silvana Roque, constata-se que há praias no Tarrafal de Monte Trigo onde o projecto Vitó assinalou uma média de oito rastos por noite no mês de Setembro e as comunidades falam em um número superior em Agosto. Nessa região, quase não há consumo da carne de tartaruga, ao contrário da cidade do Porto Novo, onde a captura é significativa.

MARCAÇÃO CERRADA

Também no Sal, Boa Vista e Maio, várias ONG’s envolveram-se nesta luta para salvar as tartarugas das garras do seu principal predador: o homem.  No Sal, por exemplo, a SOS Tartarugas patrulha diariamente as praias da ilha e em cinco anos de trabalho conseguiu reduzir em 62 por cento a matança de tartarugas e este ano registou apenas três casos de captura, um deles em flagrante delito.

Animado, Alberto Paxoneira, coordenador do SOS Tartarugas, revela que neste Verão duplicou o número de ninhos nas praias do Sal. “No ano passado contabilizámos cerca de 650 ninhos durante todo o período de desova, já este ano cerca de 1500 ninhos estão a ser monitorizados”, comemora.

INVASÃO DE PRAIAS “URBANAS”

Na Boa Vista, a Fundação Tartaruga e a Natura 2000 reforçaram a defesa este ano, porque, ao contrário dos anos anteriores, as tartarugas apareceram também nas praias urbanas de Chaves, Cabral e Estoril, locais onde há muito esta espécie deixou de nidificar por causa da grande movimentação humana com o aparecimento dos hotéis. Um regresso que é motivo de satisfação para as ONG’s, que vêem nisso o resultado do trabalho de protecção e preservação que têm levado a cabo ao longo dos anos.

Para garantir uma cobertura geral da ilha, aquelas ONG’s contam com o apoio do Projecto de Consolidação de Sistemas de Áreas Protegidas de Cabo Verde que disponibilizou guardas ambientais. São jovens dos diferentes povoados da ilha, que devidamente preparados, estão na linha da frente a assegurar a vigilância das praias, enquanto os militares operam na retaguarda.

GUARDAS ATACADOS À PEDRADA

No Maio, a Fundação Maio Biodiversidade faz vários esforços no sentido de sensibilizar a população a proteger esta espécie em vias de extinção e disponibilizou um conjunto de guardas preparados para garantir a segurança das tartarugas. No entanto, reclamam por mais apoios, uma vez que não conseguem, sozinhos, combater os predadores. Aliás, em meados de Agosto um dos guardas foi atingido com uma pedrada na cabeça por um pescador que insistia em capturar uma tartaruga. Este foi identificado e apresentando na esquadra da polícia, mas foi solto no dia seguinte.

FOGO: RESULTADOS POSITIVOS

Na ilha do Fogo, desde o mês de Junho está em curso um programa de fiscalização e monitorização das tartarugas nas praias dos três concelhos: São Felipe, Mosteiros e Santa Catarina. Desenvolvido pelo Projecto Vitó, o programa contempla a vigia nocturna para anilhar as tartarugas desovantes, recolha de amostra genética e coloca de micro-chip.

Até agora já foram contabilizados cerca de 150 ninhos, cada um com uma média de ovos que varia entre 80 e 100 unidades. Também nessa ilha o número de nidificação duplicou em relação ao ano passado.

De referir que Cabo Verde alberga cinco das sete espécies de tartarugas existentes no mundo e é o segundo maior local de desova no Atlântico Norte, sobretudo para a tartaruga-comum. A caretta-caretta, a mais ameaçada, continua a ser capturada pelos pescadores e os seus ninhos destruídos por populares, embora a lei proíba tal prática desde 1997. Este ano registou-se em Cabo Verde uma desova considerada muito acima do habitual. Até a concorrida praia de Quebra Canela, na cidade da Praia, registou desovas de tartaruga.

Fonte: A Nação

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Sobre Junior

Cristão, amante da Natureza, de bem com a vida, feliz por trabalhar com prazer
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