ALUGUEL DE POLINIZADORES, O NEGÓCIO DO FUTURO

 

ALUGUEL DE POLINIZADORES, O NEGÓCIO DO FUTURO

O desmatamento, a expansão agrícola, o uso intensivo de pesticidas, entre outros fatores, estão levando a uma perigosa perda dos agentes naturais de polinização. Em sua coluna de abril, Jean Remy Guimarães comenta o tema e o crescimento da demanda por polinizadores alugados.

Por: Jean Remy Davée Guimarães

 

Aluguel de polinizadores, o negócio do futuro Agricultores têm agora um custo adicional na produção. Com a redução do número de polinizadores selvagens, muitos têm recorrido ao aluguel de abelhas para realizar a tarefa. (foto: Waugsberg/ CC BY-SA 3.0)

Se você recebeu seu fundo de aposentadoria ou alguma boa bolada e está pensando no que fazer com esse dinheiro, esqueça a pousada, o bar, a temakeria ou a franquia de yogo-alguma-coisa. Há um setor da economia que está tendo um crescimento fenomenal e que surgiu em função da crise ambiental planetária: o aluguel de polinizadores para agricultores, para compensar a perda dos polinizadores habituais, selvagens e gratuitos, que estão desaparecendo também em escala planetária.

Uma busca no Google com os termos “pollinator rental” retorna cerca de 220.000 resultados em 0,12 segundos. Com “aluguel de polinizadores”, 83.000 resultados e a primeira pagina já revela que, no Brasil, o negócio está bombando, pelo menos na produção de pepino, mamão, melão e maracujá.

Vida dura essa. Tem que haver crédito, chuva na hora certa, estrada para escoar a produção e agora essa novidade, pagar por polinização?

As causas são muitas, algumas abordadas em colunas anteriores: a perda de hábitats e biodiversidade devido ao desmatamento e expansão agrícola e urbana, o uso intensivo de pesticidas e a criação de desertos verdes via monocultura.

O resultado é que os produtores de amêndoas, pepinos, maçãs, peras, morangos, framboesas, mirtilos, cerejas, abóboras, melões, melancias, abobrinhas – e qualquer  outro  item da dieta humana que seja um vegetal com flores – tem agora que arcar com um custo que nunca fez parte da planilha de nenhum agricultor, desde que a agricultura como a conhecemos foi inventada, há cerca de 10.000 anos.

Agora, toda vez que a época da floração se aproxima, esses produtores se perguntam se as abelhas e outros insetos polinizadores virão e se o farão na hora certa e em quantidade suficiente para garantir a safra. Vida dura essa. Tem que haver crédito, chuva na hora certa, estrada para escoar a produção e agora essa novidade, pagar por polinização?

Abelha
Abelha polinizando uma flor. Hoje, quando a época de floração se aproxima, os produtores se perguntam se as abelhas e outros insetos polinizadores darão conta de garantir a safra. (foto: José Reynaldo da Fonseca/ CCBY-SA 3.0)

Pois se prepare para descobrir um novo mundo, com empresas de polinização que alugam caminhões lotados de pallets com colônias de abelhas. Esses caminhões vão fazendo o circuito das propriedades que os contratam, uma semana ali, outra acolá, numa frenética, sazonal e lucrativa atividade.

Já há corretores de abelhas. Os preços da locação sobem mais que os do ouro. Acadêmicos e técnicos agrícolas comparam a evolução dos preços na costa leste e oeste. Não há abelhas suficientes para atender a demanda, os boletins de agricultura e apicultura ecoam as preocupações de ambos os setores.

Autoridades agrícolas já publicam guias de orientação para candidatos a locadores para evitar que comprem gato por lebre, e há pressões para a regulamentação do setor. Vejam só, tudo isso para algo que até algumas décadas atrás não era uma questão, e muito menos um custo, já que a polinização era realizada eficiente e gratuitamente por insetos, pássaros, morcegos e qualquer outra criatura dotada de movimento que aprecie néctar.

Insanidade e externalidades

O sumiço dos polinizadores e os novos custos e riscos que isto acarreta à agricultura são talvez o melhor exemplo da insanidade coletiva em que nos metemos. A agricultura industrial, baseada em monocultura saturada de pesticidas e outros insumos, seria supostamente a salvação da lavoura, graças a sua produtividade e previsibilidade.

O sumiço dos polinizadores e os novos custos e riscos que isto acarreta são talvez o melhor exemplo da insanidade coletiva em que nos metemos

Deu relativamente certo durante um bom tempo, enquanto as áreas agrícolas de baixa biodiversidade eram ladeadas por áreas naturais – ou nem tanto –, que eram reservatórios de polinizadores selvagens. Com o aparente sucesso do modelo, esses reservatórios foram minguando e agora os locadores de abelhas são tratados a pão de ló pelos agricultores que pagam adiantado, imploram para assinar contratos de cinco anos e mandam cartões de Natal e aniversário, ingressos para a final de beisebol e outros agrados.

O caso do sumiço dos polinizadores é também um excelente exemplo do que os economistas chamam de externalidade, e de como dói no bolso quando ela deixa de sê-lo. Para entender a importância de um serviço ambiental, nada melhor que passar a pagar por ele.

Os serviços ambientais como a polinização, a regulação do ciclo da água, da temperatura e outros nunca foram contabilizados na planilha de atividades econômicas que exploram recursos ambientais. Estes eram considerados infinitos e gratuitos. Os custos decorrentes da contaminação do ar e da água e da perda de biodiversidade não eram embutidos no custo final dos produtos resultantes e nem taxados. Em resumo, o custo do uso ou da degradação dos recursos naturais não era calculado ou considerado: era uma externalidade.

O custo do uso ou da degradação dos recursos naturais não era calculado ou considerado: era uma externalidade

Mas à medida que os tais recursos infinitos foram minguando e que o preço de um carro-pipa de água potável começou a ficar salgado, calcular o custo das externalidades passou a ser uma prioridade. Para voltar ao exemplo dos polinizadores, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley estimam que os polinizadores selvagens ainda sobreviventes na Califórnia representam uma economia anual de até 2,4 bilhões de dólares para os agricultores do estado.

Malabarismos e apelos

A valoração de recursos e serviços ambientais é uma ferramenta essencial de gestão e tomada de decisão para chegar a algo parecido com o desenvolvimento sustentável, ou mais pragmaticamente, menos insustentável. Não é tarefa fácil. Exige o entendimento entre profissionais de áreas díspares que não foram treinados para isso e estão aprendendo no tapa e, algumas vezes, à faca.

Os engenheiros já sabem calcular estruturas há muitos séculos, mas listar os impactos e custos de um ciclo produtivo inteiro é muita areia para o caminhãozinho de uma disciplina só e exige grande humildade e resistência à frustração. Afinal, não param de aparecer relações causais que não haviam sido sequer imaginadas até ali, e que exigem novos malabarismos metodológicos para sua valoração. Lidar com isso deve ser tão angustiante quanto tentar construir algo em um terreno que não para quieto.

Quanto custa para a humanidade – em horas não trabalhadas, desperdício de recursos, emissões de carbono e custos de saúde – uma hora de trânsito a 5 km/hora, numa cidade de 20 milhões de habitantes? Quanto custa um ônibus que não para no ponto, o excesso de barulho, de sódio, gordura e açúcar, a falta de esperança ou de vaga na escola? São perguntas aparentemente díspares que cada vez mais têm respostas bem concretas, e na moeda de sua preferência.

Tráfego
‘Quanto custa para a humanidade – em horas não trabalhadas, desperdício de recursos, emissões de carbono e custos de saúde – uma hora de trânsito a 5 km/hora, numa cidade de 20 milhões de habitantes?’, questiona Guimarães. (foto: Mario Roberto Duran Ortiz/ CC BY 2.0)

Mas não se empolgue, é uma área nova, que ainda está engatinhando, e que, ao fazê-lo, revela a cada passo mais de nossa ignorância do que de nossa capacidade. Qualquer valoração de custo ambiental ou sanitário é mais passível de ser sub do que superestimada e a maioria delas vem sendo revisada, e sempre para cima.

Esse exercício também gera momentos de rara felicidade, quando vemos ecólogos e gestores agrícolas usando em uníssono a linguagem da seção de economia para convencer agricultores e pecuaristas da importância de preservar e gerenciar adequadamente as pradarias naturais, hábitat de muitas plantas com flores e, portanto, sustento de polinizadores selvagens.

Dizem algo como: “É como uma carteira de investimentos, é importante diversificar. Assim, se algumas ações caem, outras sobem e vamos mantendo o capital. Não podemos depender exclusivamente de abelhas de aluguel e a manutenção da biodiversidade é uma garantia da produção agrícola atual e futura.” E ai, ai, ai! Cuidado que já sabemos quanto vai custar para seus bolsos se continuarem fingindo que não é com vocês.

Então, vai investir em quê? Abelhas, vespas, zangões, morcegos, borboletas ou andorinhas?
Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Anúncios

Sobre Junior

Cristão, amante da Natureza, de bem com a vida, feliz por trabalhar com prazer
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s