Meu amigo Japonês!

Foi publicado pelo meu amigo Zé Ribeiro Junior, em 18 de junho de 2010 em seu blog 

Disciplina é Liberdade!

em http://compaixaoefortaleza.blogspot.com/2010/06/incrivel-historia-do-homem-que-caiu-pra.html

Esse texto é do Humberto Bernardes Jr., agrônomo da Secretaria de Agricultura do Paraná. Foi inscrito no concurso “Servir com Arte”, de 2010, promovido pelo governo do Estado para incentivar a veia artística dos funcionários. O trabalho do Júnior não alcançou premiação, mas isso não retira os méritos da ficção criada por ele a partir da junção de várias histórias ouvidas ao longo da vida.

Tenho um grande amigo Japonês, que tem uma história muito linda de vida e que relato a seguir:

A história do homem que caiu pra cima

Humberto Bernardes Jr.

Sempre que recebia gente nova na usina de leite lá pros lados de Santo Inácio, no Norte do Paraná, o velho repetia a história do fiscal japonês que o obrigou a pôr no chão uma torre de 10 metros de altura. A obra sustentava a caixa d’água da fábrica de laticínios.

O tal sujeito era um veterinário do serviço sanitário federal, tinha acabado de assumir e invocou que a torre e o prédio principal da usina estavam muito próximos. Puxou a trena e constatou que a distância era 5 metros inferior ao que determinava o Regulamento do Geipoa. Não pensou duas vezes: mandou botar a coisa no chão.

Eu tinha ouvido essa história em uma viagem de ônibus que fiz nos longínquos anos 80 até a cidade de Santa Cruz do Monte Castelo, quase na divisa do Paraná com o Mato Grosso do Sul. Agora, cerca de 20 anos passados, em outra cansativa viagem, um sujeito com quem eu dividia a poltrona do ônibus contava outra história que me provocava uma sensação de “déjà vu”. O elo entre os dois relatos estava na lição que o usineiro de leite havia extraído da experiência e que ele proclamava às gargalhadas para quem quisesse ouvir: “não existe maracutaia que resista a um fiscal japonês”.

Pois é, o personagem de novo era um sujeito de olhos puxados, ocasionalmente empossado numa função de fiscalização e, como aquele da primeira história, igualmente imbuído de forte disposição de aplicar a lei. A diferença é que, desta vez, o agente nipônico era um engenheiro agrônomo.

Na época, lá pela década de 70, o rapaz tinha seus 20 e poucos anos e havia ingressado por concurso na antiga Acarpa, hoje Emater. A primeira tarefa do recém-formado foi fiscalizar os campos de soja prontos para a colheita. O trabalho consistia em distinguir a parcela destinada ao consumo, daquela classificada como semente. Como esta alcança uma excelente cotação, os produtores procuravam destinar uma boa parcela a esse fim, ainda que as variedades não se enquadrassem nos padrões definidos nas normas técnicas.

Nos anos que antecederam a chegada do novo fiscal a coisa tinha corrido um tanto solta por conta do antigo funcionário, que parecia mais interessado em usufruir das mordomias oferecidas por alguns magnatas do que em seguir o Regulamento. Já o jovem agrônomo se apegava às normas com a obstinação com que um chinês seguia o Livro Vermelho de Mao em plena Revolução Cultural.

Tava na cara que aquilo ia dar choque, e dos violentos.

A coisa azedou já na primeira fiscalização, por que o agrônomo do fazendeiro trouxe o laudo pronto, esperando que o colega novato apenas o referendasse. Sempre tinha sido assim … Contudo, os tempos eram outros. A exemplo do veterinário japonês que infernizou o usineiro de leite o nosso agrônomo andava munido de uma providencial trena – e não era para tomar parte em campeonatos juvenis. Com a “arma” em punho, saiu esquadrinhando os campos e foi desmontando o laudo elaborado pelo empregado do produtor. Não sobrou nada.

O mesmo se repetiu em dezenas de outras propriedades submetidas à fiscalização do “National Kid”. Se o Regulamento determinava o limite máximo de 2% de mistura varietal, e a amostragem revelava um percentual de 5%, não adiantava o produtor argumentar que a variação era ínfima. “Se assim fosse, o Regulamento mandaria 5%, não 2%” – encerrava a discussão.

Alguns fazendeiros tentaram demover o fiscal com a conversa de que ele era “muito acadêmico”, que na prática a história era outra. Outros mais descarados apostaram que o negócio do rapaz era criar dificuldades pra vender facilidades. Nem uma coisa, nem outra. Na verdade, o jovem agrônomo estava apenas determinado a fazer o que lhe parecia ser certo. Afinal, não havia passado 5 anos estudando no Curso de Agronomia para se deixar levar por conversa.

Mais difícil para ele era quando topava com colegas da faculdade, agora atuando em lados opostos. Havia sempre alguém disposto a abusar da velha amizade, como na vez em que uma agrônoma tentou liberar um silo para armazenamento de sementes, parado havia mais de dois anos. A insistência da colega terminou quando o japonês mandou ligar o equipamento e todos viram, horrorizados, dezenas de ratazanas sendo trituradas ao vivo e a cores (especialmente o vermelho sangue).

Quando ficou claro que não havia acerto com o rapaz, os fazendeiros partiram para a intimidação pura e simples. “Aqui é diferente da capital, cuidado para não levar uma azeitona na testa” – advertiam uns. Outros exibiam ostensivamente revólveres na cintura e davam tiros a esmo, enquanto o jovem agrônomo seguia esticando a sua trena e calculando o grau de pureza das amostras. Um produtor com miolos de menos chegou a atirar com o revólver quase encostado no nariz do fiscal.

O fato é que a tentativa de intimidação deu em nada. Na primeira oportunidade o japonês foi a Curitiba e comprou na Az de Espadas um 38 e boa quantidade de munição. A partir daí passou a ir também armado para as fiscalizações no campo, disposto a se meter num “faroeste caboclo”, se fosse preciso.

Não foi. Vendo que nada afastava o “National Kid” da estrita observância do Regulamento, os fazendeiros apelaram para seus amigos deputados e imploraram a transferência do rapaz. Fizeram comitiva para ir falar com o chefe do dito cujo em Curitiba. A alegação era de que o jovem agrônomo era “muito acadêmico e não compreendia a realidade da prática no campo”. Se naquela época o Buiú já tivesse o quadro na Praça é Nossa, traduziria: “o sujeito é incorruptível”.

Foi tamanha a pressão que o chefe maior cedeu aos fazendeiros e à sua “bancada ruralista”. O único jeito para justificar a transferência do agrônomo recém-formado para a Capital foi dar a ele uma baita promoção, numa função burocrática e bem melhor remunerada que a atividade de fiscal de campo. O típico caso do funcionário que “caiu pra cima”.

Disciplinado, o japonês acatou a ordem de remoção mascarada de promoção. Até porque já andava com os nervos em frangalhos, vivia a base de remédios e estava quase decidido a dar um tiro na bunda de um, pra servir de aviso. Mas não pensem que ele capitulou; continuou a bater de frente com outros “espertos”, só que dessa vez em ambientes refrigerados, perfumados e bem vestidos. Pôde até abandonar o 38, anos mais tarde entregue à Campanha do Desarmamento.

Uma dessas “encaradas” que o japonês enfrentou na nova função se deu no Rio de Janeiro, em uma reunião da Cacex para decidir a importação de rami. O japonês chegou cedo no prédio do Banco do Brasil, tomou o elevador e mal desembarcou no andar onde se daria a reunião, deu de cara com o lobista do importador.

– O que você veio passear aqui?? – o lobista foi intimidando. – Já tá tudo acertado, pode voltar pro Paraná!

O japonês ficou na dele, mas quando começou a reunião, abriu a pasta que trazia e sacou os relatórios com os números da área plantada e das quantidades colhidas da safra paranaense da fibra. Dias antes, o lobista havia convencido os técnicos da Cacex sobre a necessidade e a oportunidade de importar a fibra do mercado filipino, onde os preços estavam ultravantajosos.

O que ele não contava era com a presença do japonês intrometido, que mostrava aos surpresos funcionários da área de Comércio Exterior do Banco que não só havia oferta de rami sobrando no Paraná, como a cotação do produto não cobria os custos de produção. A importação, naquele momento, iria acabar com a cultura de uma vez por todas.

Derrotado em sua intenção, o lobista nem se despediu do japonês, e quando cruzou com ele na sala de embarque do aeroporto do Galeão fez que não o viu. Passaram-se anos até que o caminho dos dois voltasse a se cruzar. E advinha onde isso aconteceu? Lá mesmo, no departamento em que o japonês trabalhava. Numa dessas mudanças de governo o ex-lobista virou chefe do agrônomo “cdf”, e dessa vez o reconheceu:

– O senhor de novo!! – despejou, de maneira quase involuntária.

Polido, o japonês limitou-se a cumprimentá-lo e dar-lhe as boas vindas ao Departamento. O novo chefe sentiu o clima, e nos poucos meses que trabalharam sob o mesmo teto não tiveram problemas.

– E hoje, o que é feito dele? – questiono, curioso.

Consta que está aposentado e cuidando da sua própria chacrinha. Nas visitas cada vez menos freqüentes que recebe de velhos amigos ele recorda esses e outros causos dos seus 35 anos de serviço público. Especialmente quando se trata de um antigo companheiro que, como ele, também se viu obrigado a bater de frente com uma suposta esperteza que ainda hoje faz muito mal ao País.

Aproveito para expor a teoria do velho usineiro de leite, mas o meu interlocutor não concorda com ela. Ao contrário, acredita que tem muita gente que não está disposta a transigir com a ilegalidade, “mas não consegue remar contra a maré”. E me conta que o próprio japonês se questionava quanto tempo resistiria se não tivesse “caído pra cima”, quando ainda era fiscal de campo. E reflete:

– O que teria acontecido se ele tivesse atirado na bunda do sujeito que roçava o revólver na sua cara?

Talvez o meu companheiro de viagem tenha razão, às vezes o preço a pagar é alto demais. Ainda estou refletindo sobre isso quando ele me interrompe:

– Por outro lado, se tivesse atirado no sujeito, o japonês teria se tornado uma lenda na região. Era capaz até de virar prefeito. Além disso não teria aposentado o 38 invicto!

De novo tenho que me render ao raciocínio dele. Estou pensando em repassar adiante essa história e ela ficaria bem mais interessante com um tempero de pólvora. Quase lamento o fato do tal japonês não ter cometido um crime. Já pensou? Em vez da “história do homem que caiu pra cima” eu poderia chamar esse conto de “A pedagogia do tiro na bunda”.

O meu interlocutor não aprova o meu devaneio. Diz que o japonês não suportaria uns anos de cana, iria definhar e morrer. É possível que ele tenha razão. Além do que, essa história pode acabar sendo lida por senhorinhas que se escandalizem com a palavra “bunda” impressa.

A viagem vai chegando ao fim, o ônibus finalmente começa a encostar na poeirenta estação rodoviária de Jacarezinho. Apanho minha mala e me dirijo ao companheiro pra me despedir. Trocamos abraço, aperto de mão, e-mail e manifestamos o desejo de nos cruzarmos novamente em outra viagem qualquer. Animado, arrisco a proposta: quem sabe você não me apresenta o teu amigo japonês…

O sujeito faz cara de “não” e vai se afastando, enquanto fala:

– Melhor deixar o cara quieto.

Fico parado, olhando o sujeito se indo e eu ficando com aquela sensação de ter dito o que não devia. Quando relembro ainda me pergunto se o tal japonês existiu de verdade ou se o sujeito com quem dividi um banco de ônibus durante quase 8 horas apenas usou o meu ouvido porque estava sem sono.

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